MEACC – Escuteiros nos Picos da Europa

22 08 2006

O Agrupamento 1143 de Oiã participou, juntamente com muitos outros Agrupamentos da diocese de Aveiro, no MEACC – Mega Excepcional Actividade para Caminheiros e Chefes que se realizou de 15 a 22 de Agosto nos Picos da Europa em Espanha.

A actividade contou com a presença de cerca de 150 escuteiros, dos quais seis eram do nosso Agrupamento.

O ponto alto desta actividade foi atingido com se visitou o santuário de Covadonga e ali se realizou uma Eucaristia privada na sua Basílica.

Aqui fica o relato, em primeira pessoa, desta maravilhosa viajem:

Dia 1 – … Vi brilhar …

Olhei em volta e vi brilhar os olhos de quem vai partir para mais uma caminhada em direcção ao desconhecido, mas segue com amor. Assim mergulhei em mais um MEACC! Abracei este sentimento e num sorriso suave, mergulhei vezes sem conta, nos olhos dos meaccianos, sem o medo, o medo que sempre faz ficar os menos audazes, que sempre os faz desistir, porque dizem que o amor não é eterno! Mas é! É eterno, é de sempre e para sempre, pelo menos enquanto durar. Mergulhei neste amor pelo escutismo e vi sorrir, sorri também!

As telas que irei pintar com frases soltas nos próximos dias, vão decorar o espírito, dos que neste espaço procurarão nas palavras uma ligação directa ao MEACC.

Talvez não consiga com estas pinceladas, que não são mais do que o retorno de quem se envolve com as palavras e as estrelas, mostrar a realidade do dia-a-dia do MEACC.

Pergunto-me, será que quando escrevo vocês se irão aperceber que estamos a partilhar a intimidade, a conhecer os participantes, a relatar os seus passos e todos os outros que sendo personagens reais ou de ficção também ajudam a juntar esta amálgama de palavras que me/nos enchem a alma.

Talvez estes ventos que circundam Santiago de Compostela estimulem o ser e nos façam sentir que relatar/ler uma “caminhada” não é só ser erudito e complicado, mas é também partilhar sentimentos de uma forma honesta e através de uma sublime liberdade, chegar ao circo da vida onde todos nós damos o melhor para sermos e fazer-mos os outros mais felizes.

Assim foi o dia 15…. Uma viagem pelas palavras!

Dia 2 – …o plano das estrelas…

Hoje esteve um dia de chuva abundante, mas não foi o suficiente para mudar a direcção do caminho a seguir…

O escuteiro não se acomoda às circunstâncias. Ultrapassa as dificuldades e passa à acção. Ele é uma força doce e sensível.

Todos os MEACCIANOS criaram condições, para que a caminhada continue sem qualquer tipo de problemas… as dificuldades fortalecem, criando um espírito de união.

Com o recurso ao “jogo”, as estrelas VIRAM O MUNDO a que pertencem.

Olhar à nossa volta e reconhecer que não estamos sozinhos no Universo, que não somos o seu umbigo, atribuí-nos a importante capacidade de saber observar.

Vi o Mundo, os seus habitantes, os seus recursos e a sua capacidade ou impotência para ultrapassar as diferenças!

Vi a minha galáxia, a minha constelação e as estrelas, grande fonte de riqueza que me vão acompanhar nesta viagem.

As poucas palavras, continuarão a crescer e dar vida [cor] a este espaço, portanto, senta-te e escreve. O quê?…senta e sente!

Dia 3 – A dimensão do MEACC

O primeiro dia de SENDA, onde qualquer referência à dimensão do mundo visível e conhecido, é ultrapassado pela dimensão da Rota del Cares. Os MEACCIANOS sabem bem que a caminhada não é pequena, porque têm a possibilidade de a medir. São feitas referências às voltas que o universo dá, andam às voltas pelas estrelas e, feitas as contas, nas rotas que se seguiram descobriram julgamentos, talvez precipitados… olhando o Mundo!

Assim, que podem dizer entre eles? Podem talvez fingir indiferença sobre a incrível coincidência de tropeçarem nos seus pensamentos….

Há sempre motivos, lógicas, percursos pessoais que explicam os lugares mais improváveis, a próxima vez, e onde? Não importa, há tempo e espaço, que o mundo não acaba e nós ainda lhe vamos no princípio.

Importa, isso sim, é que a próxima vez continue a valer a pena. Onde houver um horizonte para cada um de nós caminhar, e uma história para contar. Amigos, amanhã lá nos voltaremos a encontrar.

Dia 4 – ‘Ajuda-me a olhar’

Todos se preparam para repetir uma das actividades mais intensas e emocionantes que conheço: caminhar [reflectir]. Quem dera não viajar de nenhuma outra maneira, não ter que desperdiçar horas preciosas desta breve coisa que é a vida, transportado por comboios, autocarros e aviões, ou encolhido no automóvel – o símbolo do movimento mas que, afinal, nos conduz à mais ridícula forma de imobilidade: a posição de sentado.

A melhor percepção do mundo é-nos dada pelo ritmo dos nossos passos. Só que o mundo é demasiado grande, e tentar percorrê-lo a pé não passa de pura utopia. Os MEACCIANOS guardaram então nas pernas, e no coração, para uma selecção pessoal um dos poucos espaços onde puderam “sentir” o melhor do mundo.

O Parque dos Picos da Europa encontra-se dentro dessa selecção.

O mau tempo apresentou vários problemas. Naturalmente, a antiga – e sempre ainda por resolver – questão de quem anda à chuva ficar molhado. Depois, a logística complicada depois de perceber que afinal não era montar tendas debaixo de um aguaceiro. Mas nada disto tem muita importância. Faz parte do preço a pagar, juntamente com o suor, e o cansaço… O problema principal é o da visibilidade: estas montanhas só se deixam observar com céu limpo. Não são massas incomensuráveis a tapar a linha do horizonte, mas linhas verticais projectadas no espaço. Para encobrir uma cordilheira é necessário uma tempestade descomunal.

É um fenómeno natural muito raro. Sabíamos que estaríamos a entrar num jogo em que tínhamos poucas probabilidades de vencer. Estas montanhas entre o Atlântico e o mar Cantábrico, situam-se numa das zonas climáticas mais instáveis do planeta. Um dia sem nuvens, aqui, acontece com a mesma frequência de uma tarde sem nortada no Verão português.

Entretanto pára de chover e por todo o lado brilham as estrelas.

É uma montanha formidável, diferente de qualquer outro tipo de acidente de relevo que eu jamais tenha visto. Recordo-me de um conto de Eduardo Galeano, no Livro dos Abraços, sobre o pequeno Diego, que não conhece o mar. Um dia, o pai leva-o à praia: «E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de formosura. E quando por fim conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: ‘Ajuda-me a olhar’».

Eu não sei como se olha para esta montanha, como se acomodam estes sentimentos de perplexidade, temor e sujeição. O «grito de pedra» provoca-me uma absurda vertigem ao contrário. Enquanto a atracção pelo abismo consiste no pensamento de se atirar para o fundo, aqui luta-se contra o pensamento de estar lá no topo. Olhar do sopé para o cume perturba tanto como chegar à orla do precipício: o arrepio que me percorre a espinha é idêntico.

Que proporção se verifica entre o corpo e esta ameia solitária na superfície da Terra? O Eu ao lado da montanha, a que equivale?

Dia 5 – «APETECE-ME BEIJAR A MONTANHA»

Tento imaginar o que se passará pela cabeça dos MEACCIANOS ao recomeçarem mais um dia…. Que determinação dará força para subir, e depois descer?

Pergunto qual foi o ponto mais emocionante: acordar com as pedras iluminadas pelo nascer do sol, vivenciar com a constelação a passagem pelo deslumbrante. Vale Vega De Comeya, percorrer a encosta da montanha ou sentir uma satisfação enorme de, com os seus, chegar ao fim.

Depois de AGIR, nada melhor para acabar o dia do que chegar a “casa”, aquecer o estômago e dar descanso ao corpo moído mas satisfeito. Obrigada constelação Erideano!

Pergunto a um MEACCIANO como é viver o MEACC [esse milagre da luz]. Responde, a rir, «apetece-me beijar a montanha», mas os olhos não estão a rir. Estão, quem sabe, a sonhar com o próximo beijo.

Dia 6 – O descanso merecido

Será que esta loucura de caminhar e parar e voltar a caminhar para depois novamente parar terá um fim à vista?

Espero bem que não!

Esta coisa de ter um dia para descansar é um luxo!

Quantos de nós não dariam para ter um tempo para parar, meditar e olhar para as bolhas. Em suma, ter um dia para contemplar as mazelas do corpo e descobrir métodos para não as repetirem.

Ao projectar este sentimento para a vida real, percebo que é impreterível parar e reequacionar a nossa fórmula de vida , para depois aplicá-la na complexidade dos nosso projecto de vida a todo o gás. Isso mesmo – ao máximo! Não devemos parar por preguiça ou por desleixo, mas parar porque merecemos, porque caminhamos porque a nossa atitude alterou o destino de alguém.

Sim, somos loucos! Loucos porque queremos mudar, moldar, alterar, amar… tudo em nome de um Deus, ele próprio louco, porque ama os homens que lhe viram as costas

Este dia de descanso foi merecido porque, de facto, existiu loucura de caminhar e é legítimo haver um dia de lucidez para compactar a loucura de uma longa caminhada e transferi-la para aquele espaço que costumamos designar por alma.

Dia 7 – O último passo.

Covadonga! O destino. Não existem poentes nem as «nuances» do crepúsculo, só a silhueta das constelações reflectidas no monte, dando estas um novo colorido às últimas horas de MEACC[2006]. Com a noite chega uma escuridão quase líquida, sibilante, musical. A emoção existe, mas não se gasta.

Quando muito deixa-se acesa a lâmpada da alma.

No MEACC aprende-se que poucas coisas são realmente essenciais na vida, e uma delas é a noite. De dia, o calor e a caminhada “fustigam” o corpo, a luminosidade excessiva magoa o olhar, a cor verde dos Picos, nos últimos dias, não foi a suficiente para esmagar os ânimos em realizar a última  caminhada [o inicio de tantas outras].

Depois, chega a noite e com ela a ORAÇÃO. Com ela uma brisa que vem do mar, uma beleza na paisagem que já é possível porque é só imaginada, um silêncio que também é feito de gente que canta na distância, uma serenidade que é uma desforra da alma. Os meaccianos respiram de novo.

Dia 8 – O MEACC!

O MEACC, é festejar a memória do ser escuteiro, é reinventar em nós o sonho de BP.

Celebramos a ambição de um homem simples de impor ao mundo uma nova ordem de valores, um desejo de dar aos jovens o domínio universal, de se afirmarem únicos.

Neste dia, todos juntos, celebrámos a ambição de sermos eternos.

E depois… Todos os gestos e “boas acções”, enquanto tais, enquanto se executam, não se limitam em si mesmos, não esquecem qual a sua origem: NÓS.


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